Sustentabilidade não é o bastante: precisamos de culturas regenerativas

4th July 2019 Off By binary
Sustentabilidade não é o bastante: precisamos de culturas regenerativas
trading bonus no deposit
Imagem: Pixabay

A sustentabilidade, por si só, não é uma meta adequada. A palavra sustenta-bilidade em si é inadequada, visto que não nos diz o que estamos realmente tentando sustentar. Em 2005, depois de passar dois anos trabalhando naminha tese de doutorado em design de sustentabilidade, comecei a perceberque o que realmente tentamos sustentar é o padrão subjacente de saúde, deresiliência e de adaptabilidade que mantém este planeta em uma condiçãona qual a vida como um todo pode florescer. Design de sustentabilidade é, em última análise, o design para a saúde humana e planetária (Wahl, 2006b).

Uma cultura humana regenerativa é saudável, resiliente e adaptável; cuida do planeta e da vida com a consciência de que esta é a maneira maiseficaz de criar um futuro próspero para toda a humanidade. O conceito de resiliência está intimamente relacionado à saúde, descreve a capacidadede recuperar funções vitais básicas e de reação a qualquer tipo de colapso temporário ou crise. Quando almejamos a sustentabilidade a partir de uma perspectiva sistêmica, tentamos sustentar o padrão que conecta e fortalecetodo o sistema. A sustentabilidade trata, antes de tudo, de saúde e resiliênciasistêmicas em diferentes escalas, desde a local até a regional e a global.

A ciência da complexidade nos ensina que, como participantes de um sis-tema ecopsicossocial complexo e dinâmico, sujeito a certos limites biofísicos,nosso objetivo deve ser participação apropriada, não a previsão e o controle (Goodwin, 1999a). A melhor forma de aprender a participação correta é pres-tar mais atenção às interações e aos relacionamentos sistêmicos e, visando apoiar a resiliência e a saúde de todo o sistema, promover diversidade e redundâncias em múltiplas escalas, e para facilitar o surgimento positivo ao atentar para a qualidade das conexões e dos fluxos de informação no sistema.Este livro explora como isso pode ser feito.

Usar o Princípio da Precaução

Uma proposta para orientar ações prudentes em face da complexidade dinâ-mica e do “não saber” é aplicar o Princípio da Precaução como um quadro de referências que visa evitar, tanto quanto possível, ações que impactarão negativamente a saúde ambiental e humana no futuro. Da “Carta Mundial da Natureza” das Nações Unidas (ONU) em 1982, ao Protocolo de Montreal sobre a Saúde em 1987, à Declaração do Rio em 1992, ao Protocolo de Quioto e à Rio + 20 em 2012, nos comprometemos a aplicar o Princípio da Precaução várias vezes.

A Declaração de Consenso de Wingspread sobre o Princípio da Precaução afirma: “Quando uma atividade ameaça trazer danos para a saúde humana oupara o ambiente, medidas de precaução devem ser tomadas mesmo que algu-mas relações de causa e efeito não tenham sido cientificamente estabelecidas” (Declaração de Wingspread, 1998). O princípio indica que o ônus da prova de que uma determinada ação não é prejudicial seja daqueles que propõem e realizama ação, ainda que o costume permita que todas as ações que (ainda) não tiveram seus efeitos potencialmente prejudiciais provada, continuem funcionando semescrutínio. Em poucas palavras, o Princípio da Precaução pode ser resumido da seguinte forma: seja precavido em face à incerteza. Isso não é o que fazemos.

Embora os grupos de alto nível da ONU e muitos governos nacionais tenham repetidamente considerado o Princípio da Precaução como uma maneira sábia de orientar ações, o cotidiano mostra que é muito difícil de implementar, pois sempre haverá algum grau de incerteza. O Princípio daPrecaução também teria o potencial de interromper a inovação sustentávele bloquear tecnologias altamente benéficas novas sob o pretexto de que não pode ser provado com certeza que essas tecnologias não resultarão em efeitos colaterais inesperados e prejudiciais para a saúde humana ou ambiental.

Por que não instigar designers, tecnólogos, políticos e planejadores profissionais a avaliar as ações propostas sob o ponto de vista do potencial positivo, sustentador de vida, restaurativo e regenerativo?

Por que não limitar a escala de implementação de qualquer inovação aos níveis local e regional até que seu impacto positivo seja inequivocamente demonstrado?

Fazer design para a saúde sistêmica pode não nos salvar de efeitos colaterais inesperados e da incerteza, mas apresenta uma rota de tentativa e erro para uma cultura regenerativa. Precisamos ur-gentemente de um Juramento de Hipócrates para o design, para a tecnologia e para o planejamento: não causar dano ou mal! A fim de fazer essa afirmação ética e operacional precisamos de uma in- tenção salutogênica (geradora de saúde) por trás de todo o design, tecnologia e planejamento: precisamos projetar para os humanos, para os ecossistemas e para a saúde planetária. Desta forma, podemos nos deslocar mais rapidamente dos negócios insustentáveis, do busines as usual, para inovações restaurativas e regenerativas que apoiarão a transição para uma cultura regenerativa. Vamos nos perguntar:

Como o design, a tecnologia, o planejamento e as decisões políticasapoiam afirmativamente a saúde humana, comunitária e ambiental?

Precisamos responder ao fato de que a atividade humana, nos últimosséculos e milênios, tem causado dano ao funcionamento saudável de ecossistemas. A disponibilidade de recursos está diminuindo globalmen-te, enquanto a demanda aumenta, à medida que a população humanacontinua a se expandir e a corroer as funções dos ecossistemas através de design irresponsável e estilos de vida de consumo desenfreado. Se o desafio de diminuir demanda e consumo for enfrentado, temos uma chance(ou possibilidade) de criar uma civilização tão pequena quanto o buracode uma agulha. Essa mudança implicará uma transformação na base derecursos materiais de nossa civilização, de recursos fósseis para recursosbiológicos renováveis e regenerados, juntamente com um aumento radical na produtividade e reciclagem de recursos. Bill Reed mapeou algumas das mudanças essenciais que serão necessárias para criar uma cultura verdadeiramente regenerativa.

Em vez de causar menos danos ao meio ambiente, é necessário aprender como participar do meio ambiente — usando a saúde de sistemas ecológicos como base para o design. […] A mudança de uma visão de mundo fragmentada paraum modelo mental de sistemas abrangentes é o movimento significativo quenossa cultura deve fazer — delineando e compreendendo as interrelações do sistema vivo de forma integrada. Uma abordagem de base local é uma forma de alcançar esse entendimento. […] Nosso papel, como designers e acionistas, é mudar nosso relacionamento para um que cria um sistema completo derelacionamentos mutuamente benéficos.

Bill Reed (2007: 674)

Reed denominou os fundamentos para a mudança no modelo mental de “pensamento de sistemas inteiros” e “pensamento de sistemas vivos”, queprecisamos para criar uma cultura regenerativa. Nos capítulos 3, 4 e 5, analisaremos essas mudanças necessárias em perspectiva e em algum detalhe. Elas andam de mãos dadas com uma reformulação radical da nossa com- preensão da sustentabilidade. Como Bill Reed coloca “Sustentabilidade é uma progressão em direção a uma consciência funcional de que todas as coisas estão conectadas; que os sistemas de comércio, de construção, de sociedade,de geologia e da natureza são na verdade um sistema de relações integradas; e que tais sistemas são coparticipantes na evolução da vida” (2007). Uma vezque mudamos essa perspectiva, podemos entender a vida como “um processocompleto de evolução contínua para relacionamentos significativos, mais diversificados e mutuamente benéficos”. A criação de sistemas regenerativos não é uma mudança simplesmente técnica, econômica, ecológica ou social: tem que andar de mãos dadas com uma mudança subjacente na forma como pensamos sobre nós mesmos, nossos relacionamentos uns com os outros e com a vida como um todo.

A Figura 1 mostra as diferentes mudanças de perspectiva à medida quenos movemos do business as usual para uma cultura regenerativa. O objetivo de culturas regenerativas transcende e inclui sustentabilidade. O design reconstituinte visa reconstruir a autorregulação saudável em ecossistemas locais, e o design reconciliatório dá o passo adicional de tornar explícitoo envolvimento participativo da humanidade nos processos da vida e naunião entre natureza e cultura. O design regenerativo cria culturas capazes de contínuos aprendizados e transformações em resposta, e antecipação, à mudança inevitável. Culturas regenerativas salvaguardam e aumentam a abundância biocultural para as futuras gerações da humanidade e para a vida como um todo.

(A melhor tradução de ‘Restorative’ seria ‘Restaurativo’ em vez de ‘Reconstituinte’!!!!)

A “história da separação” atinge os limites de sua utilidade e os efeitos negati- vos resultantes dessa visão de mundo e comportamento começam a impactarna vida como um todo. Ao nos tornarmos uma ameaça à saúde planetária, aprendemos a redescobrir nosso íntimo relacionamento com toda a vida. A visão de Bill Reed do design regenerativo para saúde sistêmica está em sintoniacom o trabalho pioneiro de Patrick Geddes, Aldo Leopold, Lewis Mumford, Buckminster Fuller, Ian McHarg, E.F. Schumacher, John Todd, John Tillman Lyle, David Orr, Bill Mollison, David Holmgren e muitos outros que analisaramo design no contexto da saúde de todo o sistema. Surge uma nova narrativa cultural, capaz de dar à luz e definir uma cultura humana verdadeiramenteregenerativa. Ainda não sabemos detalhes sobre a forma como essa cultura se manifestará exatamente, tampouco sabemos de todos os detalhes de como sairemos da atual situação de “mundo em crise” para o florescente futuro de umacultura regenerativa. No entanto, a aparência desse futuro já está entre nós.

Ao usar os termos “velha história” e “nova história” corremos o risco de pensar nessa transformação cultural como um substituto de uma história por outra. Tal separação em opostos dualistas é, em si mesmo, parte da “narrativa de separação” da “velha história”. A “nova história” não é uma total negação da atual visão de mundo dominante. Inclui tal perspectiva, mas deixa de considerá — la como a única, abrindo-se à validade e à necessidade de múltiplas formas de conhecimento. Abraçar a incerteza e a ambiguidade faz valorizarmos múltiplasperspectivas sobre nossa correta participação na complexidade. São perspectivas que dão valor e validade não só à “velha história” da separação, mas também à “história ancestral” da unidade com a Terra e o cosmos. Estas são perspectivasque podem nos ajudar a encontrar um modo regenerativo de ser humano em profunda intimidade, reciprocidade e comunhão com a vida como um todo, tornando-nos cocriadores conscientes da “nova história” da humanidade.

Nossa inquietação e urgência em tirar conclusões, respostas e soluções apres-sadas é compreensível, tendo em vista a intensificação do sofrimento individual,coletivo, social, cultural e ecológico, mas esta tendência de favorecer respostasem vez de aprofundar as perguntas faz parte da velha história da separação. A arte de inovação cultural transformadora trata, em grande medida, de fazer as pazes com o “não saber” e viver as questões mais profundamente, certificando — nos de que estamos fazendo as perguntas certas, prestando atenção aos nossos relacionamentos, e a como todos nós produzimos um mundo não apenas através do que estamos fazendo, mas através da qualidade do nosso ser. Uma cultura regenerativa surgirá da busca por viver novas formas de se relacionar consigo mesmo, com a comunidade e com a vida como um todo. No cerne da criação de culturas regenerativas está um convite para viver as questões em conjunto.

[Este é um sub-capítulo do livro Design de Culturas Regenerativas, de Daniel C. Wahl — Editora Bambual]


Sustentabilidade não é o bastante: precisamos de culturas regenerativas was originally published in Hacker Noon on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.

social trading binary options